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Dr. Fernando S. ValenteClínica Médica · Medicina Interna

Texto · 10 de julho de 2026

Check-up: quais exames fazem sentido (e quais não)

“Check-up” virou sinônimo de pedir muitos exames. Toda semana chega alguém ao consultório com um pacote de trinta itens marcados no laboratório, quase todos normais, e a pergunta continua no ar: e agora?

A ideia de que mais exames significam mais saúde é intuitiva e quase sempre errada. Cada exame carrega uma chance de dar um resultado alterado que não quer dizer nada — um nódulo de tireoide que nunca vai incomodar, uma enzima um pouco fora da faixa, uma imagem “a esclarecer”. Aí vem a segunda tomografia, a punção, a noite sem dormir. Nenhuma dessas etapas melhorou a sua saúde. Mexeu só com o seu sossego.

O que costuma valer a pena

Não existe uma lista única de check-up. O que faz sentido para você depende da idade, do histórico da sua família e dos seus hábitos. Ainda assim, alguns pontos aparecem quase sempre:

  • Medir a pressão arterial. É barato, rápido e uma das coisas que mais muda desfecho a longo prazo.
  • Colesterol e glicemia, a partir de certa idade ou antes se houver risco.
  • Os rastreios de câncer que têm evidência sólida: colo do útero, mama e intestino (colorretal), cada um na faixa etária indicada.
  • Uma conversa honesta sobre sono, álcool, tabaco e movimento. Isso pesa mais na sua saúde do que a maioria dos exames de sangue.
  • Vacinas. Quase ninguém lembra delas num “check-up”, e elas previnem doença de verdade.

O que raramente ajuda em quem não tem sintomas

Exames de imagem do corpo inteiro, marcadores de câncer no sangue pedidos “por garantia”, painéis hormonais extensos sem queixa nenhuma. Em pessoa sem sintoma, esses testes encontram muito mais achados irrelevantes do que doença, e cada achado irrelevante custa caro — em dinheiro, em tempo e em ansiedade.

Isso não quer dizer nunca investigar. Quer dizer investigar quando há um motivo: um sintoma, um fator de risco, uma história familiar que muda as contas.

Como eu penso um check-up

Antes de pedir qualquer coisa, eu prefiro entender quem está na minha frente. Sua idade, o que já aconteceu na sua família, como anda seu dia. A partir daí, escolhemos juntos os exames que realmente podem mudar alguma conduta. Os outros ficam de fora, e isso é uma decisão ativa, não um esquecimento.

Pedir menos exames dá mais trabalho do que pedir todos. Exige pensar caso a caso. Mas é assim que se evita transformar uma pessoa saudável num paciente cheio de pendências.